17 de abr de 2011

dores

é como se meus olhos pudessem ver os territórios da minha alma sendo invadidos pela dor.
sinto dores que há muito não sentia. daquelas que ameaçam o orgulho, a verdade e o plano. dores que desmantelam a lógica, o tempo e a regra.
eu que ergui muros altos, que cerquei de cuidados os limites encantados da emoção. eu que conheço os danos da invasão, o drama e o estrago da rendição.. eu que sou forte, sinto dores. eu que calei o coro dos valentes, silencio diante do sussurro das dores.
eu que inventei a analgia, sinto. eu que entreguei os remédios em troca de vacina, experimento a sina de quem inevitavelmente sente.
sinto dores.
e sentindo entendi que nessa vida não há beleza livre da dor. não há sentido inviolável, nem sentimento invariável. é sentindo que se lembra que é com dores o nascimento, com dores o crescimento. é com dores que se ganha e que se perde. é com dores que se paga. é com dores que se espera.
dor é a herança confusa de quem ainda vive essa vida pequena. é o sintoma da doença. é a sentença da escolha. é algoz e é vigia. em vez de atestar a ausência do bem, é a prova do efeito do mal. sem dor não haveria salvação.

sinto, logo dói.
 
 
texto de cândido gomes.

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